OPINIÃO CÊNICA

28/09/2004 21:49
NOTÍCIAS DE GUARAMIRANGA


No XI Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, a trupe Clowns de Shakespeare, RN, conquistou seis dos 12 prêmios oficiais


CENA de Muito Barulho por Quase Nada, do grupo Clowns de Shakespeare: o melhor espetáculo do XI Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, além de troféus em outras cinco categorias

[28 Setembro 20h14min 2004]

Dez anos de estrada e tributo confesso às comédias shakespeareanas, mas sem perder o ''sotaque''. O grupo Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, saiu do último Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga com seis prêmios na bagagem: o de melhor espetáculo por Muito Barulho por Quase Nada; o de melhor direção para Fernando Yamamoto e Eduardo Moreira; o de cenário e o de caracterização em figurino e maquiagem para João Marcelino; o de iluminação para Rogério Ferraz e o de melhor sonoplastia para Marco França. Nada menos do que metade das 12 premiações oficialmente conferidas. ''Pessoalmente, não sou a favor de festivais competitivos e juízos de valor. Um júri pode escolher este trabalho, outro pode escolher aquele. O mais importante é a troca, às vezes inibida pelo espírito competitivo. Neste ponto, todos saímos vitoriosos. Como nossas realidades são afins e somos geograficamente próximos, um encontro de âmbito regional gera vínculos sólidos, que perduram. Além disso, foi enriquecedor debater com júri e demais atores sobres acertos e limitações, já no dia seguinte à apresentação. Isto é inédito em eventos do gênero no Brasil'', reconhece Fernando Yamamoto.

Muito Barulho por Quase Nada, livre adaptação de Muito Barulho por Nada, de William Shakespeare, tem cores próprias. ''Não faria sentido adotarmos uma postura museológica para montar Shakespeare, apesar do respeito que mantemos diante de sua obra. Tanto assim que só dez anos depois de estudá-la é que decidimos partir para o primeiro espetáculo de repertório. Ainda assim, buscamos o nosso Shakespeare, sem, é claro, apelar para regionalismos'', conceitua. A busca, coletiva, fisgou profissionais de renome, como Eduardo Moreira, um dos fundadores do grupo Galpão, de Minas Gerais. ''Como co-diretor, ele nos mostrou, sobretudo, que é possível fazer um trabalho musical de qualidade. Ninguém tocava ou cantava antes do espetáculo, à exceção de Marco França, que é músico profissional da mais alta qualidade e assina a direção musical. Eduardo descobriu a musicalidade teatral em cada um e tornou real a possibilidade de usar música ao vivo'', revela.


No palco, o ambiente esfuziante da casa do patriarca Senhor Leonato, o hilário viúvo que peleja para casar sua filha Hero e sua sobrinha Beatriz, é recriado por João Marcelino - nas palavras de Fernando ''o maior artista do teatro potiguar''. É dele o cenário, o figurino e a maquiagem dos clowns, que também acabaram premiados. ''Pediu que construíssemos um acervo de roupas usadas, colares, colchas, redes, tapetes, tampas e rolhas de garrafas. Reciclar foi a palavra de ordem'', conta Fernando, referindo-se aos elementos fundantes da cena que faz saltar aos olhos, sobretudo através de jogo cromático, a paixão e o desejo intrínsecos ao texto. O espetáculo é ainda resultado de um trabalho sem fronteiras de preparação dos atores. ''Temos intercâmbios com grupos e profissionais variados, como o Galpão, o Teatro da Vertigem, de São Paulo, e o Lume, de Campinas, ligado à Unicamp. Com este, passamos a atentar para o fator ético - e não só técnico - do trabalho teatral. Dominar a técnica da exaustão física, por exemplo, a fim de atingir um estado mais livre em relação aos comandos do cérebro, é tão importante quanto o respeito ao espaço. Antes de toda sessão, limpamos a sala, onde não se entra calçado e não se conversa. Detalhes que o tornam orgânico, sagrado'', defende.

O processo colaborativo é outro coringa. ''O poder de contaminação no processo de criação do Outro deve ser estimulado pelo diretor, que de maneira alguma é o todo-poderoso'', admite. Em Aracaju, o grupo pôs à prova o mesmo poder de contaminação em relação à própria comunidade. Amparado em leis de incentivo estadual e federal, fundou, há dois anos e meio, a Casa da Ribeira. Hoje, o centro cultural aposta na formação de novos grupos teatrais, assim como no intercâmbio destes com os veteranos, mas também abre as portas para a música, as artes plásticas, a dança e a literatura. Para bancar Muito Barulho por Quase Nada vingou a proposta ''descarada'': ''Pague 30 ou mais pelo que você pagaria dez e olhe lá''. ''Foi uma campanha jocosa feita entre amigos, primeiramente. Mas o boca-a-boca funcionou e o público pagou de bom grado para ver o trabalho acontecer de forma profissional'', vibra Fernando. A próxima pesquisa dos Clowns de Shakespeare centra foco numa unanimidade nacional: o compositor Chico Buarque. Mas antes, Fortaleza verá o que Guaramiranga já viu: na esteira do projeto Telemar Grandes Espetáculos, Muito Barulho por Quase Nada sobe ao palco do Theatro José de Alencar, em novembro próximo.



PREMIAÇÃO

§ Melhor Espetáculo de Júri Oficial – “Muito barulho por quase nada” (RN)
§ Melhor Espetáculo de Júri Popular – “Angu de Sangue” (PE)
§ Melhor Direção – Fernando Yamamoto e Eduardo Moreira por “Muito barulho por quase nada” (RN)
§ Melhor Ator – Paulo Ess por “Curral das Lembranças” (CE)
§ Melhor Atriz – Augusta Ferraz por “Guiomar, a filha da mãe” (PE)
§ Melhor Ator Coadjuvante – Fábio Caio por “Angu de Sangue” (PE)
§ Melhor Atriz Coadjuvante – Hermylla Guedes por “Angu de Sangue” (PE)
§ Cenário – João Marcelino por “Muito barulho por quase nada” (RN)
§ Caracterização em Figurino e Maquiagem – João Marcelino por “Muito barulho por quase nada” (RN)
§ Melhor Iluminação – Rogério Ferraz por “Muito barulho por quase nada” (RN)
§ Melhor Sonoplastia – Marco França por Muito barulho por quase nada (RN)
§ Texto Original – Rafael Martins por Lesados (CE)
§ Prêmio Especial de Incentivo à Dramaturgia – Rafael Martins (CE)
§ Prêmio Especial de Incentivo à Pesquisa – “Lampião e Maria Bonita” (BA)


FESTIVAL DE TEATRO
Três para lá,
três para cá

Ceará e Pernambuco foram os estados que mais classificaram espetáculos para a mostra competitiva do Festival de Guaramiranga



No XI Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, Ceará e Pernambuco competem em pé de igualdade: cada estado classificou três espetáculos. Última terça-feira, a noite da mostra competitiva foi de ambos. Enquanto os cearenses da Cia. De Teatro em Construção encenava O Livro, a dupla pernambucana da Cia. Parcas Sertanejas subia ao palco para apresentar Guiomar, a Filha da Mãe. O primeiro tratou dos impasses de uma relação amorosa em crise, usando o livro de estimação de ambos como pretexto. Mas com a intenção final de desnudar e dessacralizar o trabalho de ator. O segundo fragmentou um texto em cordel assinado por Lourdes Ramalho para contar sobre uma ex-professora em situação de miséria, vagando pelas ruas a catar lixo e contar a História do Brasil, sob o olhar cúmplice de um ''agregado''.

Pouco antes das apresentações, Aldo Marcozzi, diretor de O Livro, e Rafael Martins, autor do texto original do espetáculo - ele ainda concorre na mesma categoria com Lesados, outra prata da casa - sentaram-se no refeitório do Mosteiro dos Capuchinhos para conversar com os pernambucanos Augusta Ferraz e Márcio Carneiro, protagonistas de Guiomar, a Filha da Mãe. O papo informal, sem pauta definida, teve como mote os próprios trabalhos em cena, mas enveredou pela importância da formação para o ator e os processos criativos de cada um.

Aldo Marcozzi - Esse problema de que vocês tratam no espetáculo Guiomar é recorrente nos estados brasileiros: pessoas que tiram do lixo a sobrevivência.
Augusta Ferraz - Isso inclui a nós, que muitas vezes tiramos cenário e figurino do lixo, reciclando o que sobrou dos antigos.

Aldo - É verdade. No caso de O Livro, tem uma porta que foi de um espetáculo do extinto Colégio de Direção, que estava no lixo e a gente reaproveitou.
Augusta - Encenar e dirigir Guiomar foi revelador. Só aí fui perceber a vida e o raciocínio do miserável. Até então, olhava muito os que vivem na rua, que não têm direito a coisas que eu e você temos, direitos civis e sociais, olhava para eles apenas como sofredores e desvalidos. Depois de Guiomar percebi que são pessoas que têm família, que têm sua própria história, pensam. Hoje, olho para um carroceiro e não vejo só um miserável catando papelão na rua para poder comer. Aquela pessoa tem um universo dentro dela. Emocionalmente isso me ajudou muito, me senti mais integrada, menos burra.

Márcio Carneiro - Sou de Goiás, moro em Recife desde 1998 e também fui ter noção de muita coisa ligada à cultura e à história através do texto de Lourdes. Quer dizer, a informação de que os judeus, pós Inquisição, fogem e se embrenham no Brasil rebatizados com nomes de animais e plantas, como Oliveira, Carvalho, enfim, isso eu não tinha. Foi uma surpresa. E um meio de pensar um pouco também sobre o tema do festival de Guaramiranga: Transculturalismo e Processos Identitários. São vários Brasis e realmente a gente não tem conhecimento sobre muita coisa, pelo tamanho do País. No fundo, as nossas raízes são muito parecidas, ainda mais para quem é do interior, meu caso. Senti medo quando cheguei em Recife, a cultura é muito viva. Mas tive sorte porque fui logo fazer um curso com Ariano Suassuna e percebi que não preciso abstrair a minha cultura para absorver outra. Somar é que é interessante.
Augusta - Há um ponto onde todos nós nos encontramos, que é a humanidade realmente, independe de onde estejamos. Que identidade cultural é essa? Por mais que você encontre formas variadas de viver e se expressar, há algo que nos universaliza e nos define como humanidade.

Márcio - É muito perigoso apontar a forma. A minha formação é urbana. Não dá pra negar isso. Cada um tem a sua história. Então, como colocar isso no teatro? Que não seja apenas via sotaque, né? A gente liga a televisão e fica aquela coisa pequena. E é muito maior. Mas para isso a gente tem que ter uma maior troca, sobretudo no próprio Nordeste.
Augusta - Sem Dragões e Leões.

Aldo - Nisso os festivais ajudam muito. Há intercâmbio. E é um paliativo diante das dificuldades de formação que enfrentamos. No Ceará, a gente tem a tradição de correr contra a corrente e as coisas durarem pouco, os cursos de formação chegam, os governos mudam e desmancham o que estava feito. O que sobrou em termos de formação depois da extinção do Colégio de Direção Teatral? O Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará, que é de extensão, o único que dá diploma; o curso de princípios básicos de teatro no Theatro José de Alencar, via Secretaria da Cultura do Estado, e o curso superior do Cefet, que ainda é novo, agora que formou a primeira turma, então é difícil avaliar. Mas só existir cursos não é o xis da questão. O que importa são as oportunidades de aprendizagem que eles oferecem. Nesse caso, o Colégio de Direção faz muita falta, porque estabelecia um vínculo com todo o País, trazendo para Fortaleza profissionais de diversas procedências e escolas. Com ele, as artes cênicas do Ceará ganharam novo impulso, talvez muitos trabalhos aqui não existissem se não tivesse havido esse espaço para exercitar a criatividade. Um curso de formação é fundamental para congregar e pôr o pensamento em movimento.
Augusta - Em termos de formação ainda não chegamos ao ideal, mas Recife oferece bem mais opções. Existe a Faculdade de Artes Cênicas da Universidade Federal de Pernambuco, com bacharelado em Direção e Interpretação e só estamos esperando a definição do MEC para implantar mestrado em interpretação e direção. Até lá, voga um convênio com a Universidade Federal da Bahia para mestrado. O mestrado em Antropologia da UFPE também é muito voltado para as artes. Fora isso, temos cursos temporários pagos, como os que acontecem no Centro de Formação Experimental Apolo Hermilo, que pertence a uma sociedade de amigos, mas funciona em um prédio da prefeitura. Agora, Recife tem muitos festivais, não é? Festivais com reputação e que traz profissionais de todo o mundo para lá. Festival de Teatro de Rua, Festival Nacional de Teatro do Recife, Janeiro de Grandes Espetáculos, Festival Todos Verão Teatro, Festival de Inverno de Garanhuns... em todos eles há inúmeras oficinas e seminários, o que muito contribui para a formação.

Rafael Martins - Já eu, por exemplo, enquanto autor de textos para teatro, tenho que ser auto-didata. Vou atrás de outras pessoas que escreveram no passado, que tiveram curso de formação, têm os livros... Mas escrever para teatro não é simplesmente um exercício de forma e sim de alma, de conteúdo, de sensibilidade. Estou competindo com dois textos completamente diferentes entre si. Os Lesados nada tem a ver com O Livro. Ficamos numa dúvida danada para inscrever O Livro até, porque na verdade não é um espetáculo com cara de festival. É um jogo cênico.
Aldo -É um espetáculo dentro do espetáculo. Não tem figurino. Os atores usam uma roupa de trabalho e entram num embate, tendo como base o texto do Rafael, mas o que a gente propõe é a criação de um espaço em que os atores entrem em clima de jogo cênico, de aqui-e-agora. Nossa preocupação é processual. O Livro é trabalho em processo, sempre. Tanto que o texto já tem coisas minhas, dos atores, embora seja do Rafael.

Rafael - Escrevo texto a partir do que me foi dado como resposta. Escrevo e vou ver como funciona através do ator. A visão de dramaturgo é que a dramaturgia é literatura que vai virar teatro. Mas o ator é que é a centralidade do teatro, o texto é pretexto, às vezes nem existe. Ator e platéia é que sempre têm que existir.

Aldo - O Livro é muito simples. Tem a centralidade no ator e mais do que contar a história do casal Virgínia e Pablo, o espetáculo é sobre teatro. É um espetáculo sobre dois atores em cena. Obviamente que não se fala sobre isso. Mas toda a teatralidade está revelada ali, tanto é que só há uma mesa e uma porta como cenário e os atores se aquecem em cena. Tem a ver com uma tentativa de dessacralizar o fazer teatral e sobretudo tirar a ansiedade do público e do ator. Aquela coisa do ator ficar gelado para entrar e o público criar uma expectativa enorme em relação ao espetáculo que verá. Às vezes, nos ensaios, a gente consegue momentos brilhantes, de olho no olho, se arrepia e sonha: 'ah, se no dia acontecesse assim'. Não se trata de um ensaio aberto, mas um convite ao público para presenciar, quem sabe, um momento como esse e um trabalho que está em processo
.
Augusta - Queria cutucar os dois: vocês falaram na negação do glamour do teatro, da ansiedade. Não entendi bem como é isso.

Aldo - As pessoas fazem um espetáculo como um fim... tem que ter uma beleza absolutamente estonteante, existe toda uma ansiedade que se cria em torno do ser ator de teatro. E às vezes se investe muito em parecer ator de teatro e se investe pouco em ser de fato. O ofício do ator exige permanente estado de reflexão, auto-investigação e formação. O ator é melhor ator tanto melhor gente ele for.

Augusta - Mas você não acha que todas maneiras de fazer teatro, de sentir teatro, viver teatro não fazem com que o teatro continue aceso? Tudo o que é tido como não-sério e não-teatral também não faz parte desse contexto? Porque já pensou uma coisa só boa, intelectualizada, definida... Isso deve ser eliminado da ação do teatro?
Aldo - Eliminada não, mas o ator deve ter consciência cada vez mais de que seu ofício deve ser revisto, a forma cada um escolhe.

Augusta - Acho que as pessoas de teatro se dão uma importância tamanha. Tanta que terminam não abrindo as portas para a aprendizagem, porque o que é fútil hoje, amanhã pode não ser. O que se vê como falta de seriedade, na verdade, são formas de aprendizagem também. A gente perde por exigir tanto, menosprezar tanto, segmentar tanto. Nós mesmos somos muito preconceituosos conosco. O teatro na sua totalidade perde com isso. Tem que ter os vazios, os glamourosos, os alucinados. As próprias pessoas vão aprender a discernir o que é interessante para elas ou não.


enviada por Cenicas_pe






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